segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

POETA FERREIRA GULLAR MORRE AOS 86 ANOS NO RIO DE JANEIRO


O poeta Ferreira Gullar, ao sentir seu quadro de saúde se agravar por causa de uma pneumonia, pediu à mulher, a também poeta Claudia Ahinsa, para não sofrer intervenções que prolongassem sua agonia. A alternativa dos médicos era que ele fosse entubado.
"Se você me ama, não deixa fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz", pediu àquela que era sua companheira havia 22 anos. "Foi uma decisão muito dura para nós, para a família e para mim. Mas era o que tinha de ser feito", disse Claudia, muito emocionada.
Gullar sentiu-se mal na madrugada de 9 de novembro. Com intensa falta de ar, foi levado para o Hospital Copa D'Or. Os médicos diagnosticaram pneumotórax, a entrada de ar na pleura,a fina camada que recobre os pulmões. O problema era um reflexo do seu tempo de fumante, ainda que estivesse livre do cigarro há mais de 30 anos.
O ar na pleura comprime o pulmão e o faz murchar. Nos 25 dias de internação, os médicos trataram a lesão na pleura. Instalaram um dreno, para a retirada do ar. E esperavam o pulmão expandir para liberá-lo. "Estava tudo dando certo. A pleura estava fechando, o pulmão estava expandindo. Eles tirariam o dreno nos próximos dias e ele já receberia alta", conta Claudia.
Claudia conta que o marido tinha boa saúde. "No domingo, três dias antes da internação, tínhamos ido ao cinema, passeado. Não tinha nada no coração, indisposição para nada. Essas doenças são silenciosas", afirmou.
O casal imaginava que a internação seria curta. Preferiu não alarmar os amigos. Com o passar das semanas, Claudia começou a contar a um e outro sobre a internação. Nas primeiras semanas, Gullar escreveu de próprio punho a crônica semanal publicada na Folha de S. Paulo. Depois, com o agravamento do quadro, passou a ditar o texto para a mulher. "Ele era poesia pura. A poesia está aí. A obra vai ficar", afirmou.
Gullar foi velado na Biblioteca Nacional a partir das 17 horas de domingo (4). Pela manhã, houve um cortejo até a Academia Brasileira de Letras. O poeta foi enterrado à tarde, no Mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.
Desde de 2014, Gullar ocupava a cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras (ABL), que foi anteriormente ocupada pelo também poeta Ivan Junqueira, falecido em julho daquele ano.

José Ribamar Ferreira nasceu na capital do Maranhão e era um dos onze filhos de Newton Ferreira e Alzira Ribeiro Goulart.

Durante a adolescência, descobriu a poesia clássica e em seguida, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, entre outros.

Seu primeiro livro, "Um pouco acima do chão" (1949) acabou excluído de sua bibliografia. Em 1950, com o poema "O galo", ganhou um concurso promovido pelo Jornal de Letras, tendo no júri Manuel Bandeira, Willy Lewin e Odylo Costa Filho.

Ferreira Gullar mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951, onde conheceu o crítico de arte Mário Pedrosa e o escritor Oswald de Andrade, e trabalhou como revisor na revista "O Cruzeiro".

Em 1954, publicou "A luta corporal", cujo projeto gráfico chamou a atenção de Augusto e Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Gullar trabalhou na revista "Manchete" e no "Diário Carioca", e depois se engajou no projeto do "Suplemento Dominical" do "Jornal do Brasil".

Ele participou da I Exposição Nacional de Arte Concreta no MASP, em 1956. No ano seguinte, quando a mostra foi para o Rio de Janeiro, distanciou-se do grupo concretista de São Paulo. Em 1958, lançou o livro "Poemas".

Um ano depois, redigiu o "Manifesto Neoconcreto", publicado no "Suplemento Dominical" e também assinado por Lygia Pape, Franz Waissman, Lygia Clark, Amilcar de Castro e Reynaldo Jardim, entre outros. "O manifesto" abriu o catálogo da I Exposição de Arte Neoconcreta, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Durante o governo militar, em 13 de dezembro de 1968, Gullar foi preso na companhia de Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em 1969, ainda lançou o ensaio "Vanguarda e subdesenvolvimento", mas passou a dedicar-se à pintura e, em 1971, partiu para o exílio, morando em Moscou e depois em Santiago, Lima e Buenos Aires.

Durante esse período, colaborou com O Pasquim, sob o pseudônimo de Frederico Marques.

Em 1997, lançou "Cidades inventadas" e passou a viver com a poeta Cláudia Ahimsa. "Rabo de Foguete - Os Anos de Exílio" é publicado em 1998. No ano seguinte, lançou "Muitas vozes" e foi agraciado com o Prêmio Jabuti, na categoria poesia. Em 2000, recebeu o Prêmio Multicultural Estadão, de O Estado de São Paulo, pelo conjunto de sua obra.

Gullar teve três filhos com Thereza Aragão: Marcos, Paulo e Luciana. Marcos, que tinha esquizofrenia, assim como Paulo, morreu em 1992 de cirrose hepática.
Ferreira Gullar era poeta, ensaísta, crítico de arte, dramaturgo, biógrafo e, como tradutor, fez com Fagner a versão em português de "Borbujas de amor", canção de Juan Luis Guerra. Em 2010, durante a Feira Literária de Paraty, Gullar deu uma entrevista para a repórter e humorista Dadá Coelho, na qual revelou o que é na verdade o "peixe" citado na letra da música.

"O Fagner, que é pirado, me mandou fazer a tradução sem perguntar pro cara, sem falar nada com o cara", diz Gullar. Dadá fala que adora a música e começa a cantar o refrão, "Um peixe, para enfeitar de corais tua cintura". E então dá-se o seguinte diálogo:
"Agora, sabe que peixe é esse, não?"
"Que peixe é esse? Parati! Parati é um peixe."
"Não, não é não."
"Que peixe é esse então?"
"É a piroca"

Fonte: UOL TV e Famosos